PARA ELIANE, POR ELIANE

Contei dias regressivamente na ânsia de contar um sonho de anos que, hoje, somente um corredor estreito afastava de mim com a pirraça de seus poucos centímetros.  Eliane Brum não coube naquele auditório; eu mal preenchia a cadeira de onde escaneava cada um de seus outros traços, tão frágeis como os traços que bordaram cada palavra sentida por mim de cor.

Foram as únicas concessões, até a noite de hoje, feitas a mim pela mulher que transbordava em meu imaginário e que hoje, única e milimetricamente encaixada, se expusera inteira na vitrine embaçada dos meus olhos.

Minha personagem viva se mostrou do avesso para fazer desta noite um daqueles momentos em que o Jornalismo vale cada uma de suas entranhas à mostra. Repórter de “desacontecimentos”, para os quais restam as notinhas de rodapé da imprensa tradicional, Eliane é esculpida pela absurdidade da vida de seus personagens reais, capturados por seus olhos insubordinados e reinventados pela rebeldia de sobreviver à própria vida: “a palavra é meu ser e estar no mundo. Escrevo para não morrer e matar”.

Constituída no limiar entre a vida e a morte, a gaúcha de Ijuí renascia ao transformar dor em palavras descobertas a sete palmos da terra: “meu primeiro poema nasceu de minha angústia aos nove anos de idade; descobri que a escrita me dava outra chance de viver. E foi Luzia, mulher preta, quem nos tirou da cegueira das letras. À primeira professora de meu pai prestávamos homenagem todos os dias de finados. É a ela quem devo meu segundo parto, o das palavras”.

A jornalista mais premiada do país se dividiu entre memórias, política e questões socioambientais, borrando as fronteiras entre a ficção e uma realidade que, assim como ela, já não cabe em si mesma. Quanto ao futuro/presente do país, a expectativa ainda parece insistir: “a esperança é um artigo caro, do qual não podemos nos dar ao luxo. Mesmo assim, precisamos sorrir, nem que seja por desaforo”.

De ti vitral, Eliane, teus pedaços me cortam a carne crua, ainda e sempre sob teus efeitos. Sem estancar essa verborragia que sinto, que sangra e escorre. É a prova de que ainda estou viva.

Rúbia Keller, Jornalista