Moçambicano José Eduardo Agualusa abre os bate-papos virtuais do Livro Livre com reflexões sobre a escrita e interação com o público

O primeiro fim de semana de Feira do Livro de Santa Maria encerrou com uma participação de reconhecimento internacional. O Livro Livre de domingo teve como convidado o escritor angolano José Eduardo Agualusa, vencedor do “Independent Foreign Fiction Prize” com a obra “O Vendedor de Passados”.

O bate-papo iniciou destacando a diferença de cinco horas de fuso horário entre Santa Maria e a Ilha de Moçambique, localizada ao norte de Angola, de onde o escritor participou do bate-papo. A conversa foi mediada pela jornalista Vanessa Backes e pelo professor de filosofia Andrei Cerentini.
Agualusa abriu sua fala compartilhando costumes locais, onde pessoas costumam acordar às 4h da manhã, horário em que o sol já desponta na região.

Livro Livre - José Agualusa - Foto: Ronald Mendes
Livro Livre – José Agualusa – Foto: Ronald Mendes

A primeira pergunta trouxe em voga uma fala sua em que comparava a vida de escritor com a de um caixeiro viajante, profissão obsoleta em que pessoas viajavam por cidades para vender artigos que não haviam disponível no local. Agualusa destaca que o itinerário do escritor abarca viagens para promover livros e ir a eventos literários. Porém sua rotina mudou no contexto de pandemia, onde passou a viajar menos, viagens retomadas nos últimos dois meses com a volta de eventos presenciais. Ainda sobre a questão, refletiu: “Creio que todos nós iremos viajar menos no futuro”.

A atualidade de questões envolvendo o objeto livro também foi uma pergunta levantada ao convidado, sendo questionado sobre a diminuição do consumo de livros de papel. Ele não acredita que o mercado editorial irá adotar menos o livro físico e mais o digital. Mas afirma que houve um aumento de compras online, onde leitores seguem comprando o livro em papel. “Eu compro bastante livro eletrônico quando estou aqui nesta ilha, não há livrarias por aqui. Quando sai um livro novo eu compro eletrônico, mas eu prefiro ler no papel”, declara.

O método de criação de seus personagens, sempre marcantes, foi uma curiosidade levantada pelo público que acompanhava o Livro Livre pela internet. Agualusa afirma não ter método, destacando que a criação ocorre intuitivamente. “Eu parto de uma ideia e os livros vão se construindo, os personagens vão se desenvolvendo e no fim são eles que me levam, me arrastam. Meu método é esse, deixar os personagens livres e eu vou seguindo eles. Quando escrevo também quero saber o que vai acontecer, assim como o leitor. O leitor lê para saber o que vai acontecer, eu escrevo para saber o que irá acontecer. Se eu soubesse tudo, não escreveria.” pontua.

Livro Livre - José Agualusa
Livro Livre – José Agualusa – Foto: Ronald Mendes

Sentir-se ou não um porta-voz da cultura africana foi a pergunta realizada por Bruna Luzzi, coordenadora do Clube de Leitura Athenados, de Santa Maria. O escritor iniciou sua resposta enaltecendo o movimento de clubes que discutem literatura, afirmando ter apreço por esses encontros que democratizam a leitura e enriquecem o livro, pois, segundo Agualusa, as pessoas juntas vão encontrando camadas novas nos livros. Respondendo à pergunta o escritor destacou que África é um continente vasto, com muitos países diversos e literaturas diferentes.

 

Ele também considera que as literaturas africanas estão em um bom momento e têm grande futuro, alegando que os países estão carregados de histórias por serem territórios que atravessaram momentos históricos turbulentos.

Escrever como uma forma de entender o mundo foi o motivo principal que o levou a ser um escritor, como uma forma de compreender a realidade em sua volta. Agualusa explica que busca narrar sobre o passado para também entender o presente.
Atencioso, o escritor finalizou sua participação atendendo a um pedido por quem acompanhava o bate-papo: escutar um de seus poemas. O escritor então buscou o texto solicitado e encontrou algo que definiu como “uma coisa” chamada “Milagres à Domicílio”, um privilégio aos que acompanhavam a transmissão e puderam prestigiar, em primeira mão, a produção do angolano, ainda não finalizada.

A Feira do Livro ocorre até 16 de outubro, com programação híbrida na Praça Saldanha Marinho, no Theatro Treze de Maio e nas redes sociais da Feira. Na noite de 4 de outubro o Livro Livre traz um bate-papo com o escritor Itamar Vieira Jr. O público poderá acompanhar o diálogo pela transmissão nas redes sociais da Feira do Livro de Santa Maria.

 

Texto: Nathália Arantes – acadêmica de jornalismo da UFN

Jornalista responsável: Liciane Brun – MTB 16.246