quarta-feira, maio 22, 2024
Feira Do Livro 2017TODAS EDIÇÕES

PARA QUE A HISTÓRIA NÃO SE REPITA

“A expressão trem de doido é comum em Minas Gerais, mas sua origem vem de Guimarães Rosa, para identificar o trem que levava pacientes de todo o Brasil para o Colônia, a caminho da morte numa viagem sem volta”. Assim, Daniela Arbex iniciou o bate-papo do Livro Livre noite desta quinta, 11 de maio. Daniela é a premiada escritora dos livros Cova 312 e Holocausto Brasileiro.  Este último conta a história do genocídio de mais de 60 mil pessoas e do descaso como pacientes do maior hospital psiquiátrico do Brasil no século XX, o Colônia, em Barbacena, Minas Gerais. “Eu não escolho as histórias que vou contar, as histórias que me escolhem”, revela Daniela sobre como teve o primeiro contato com o tema do livro. Em uma entrevista com um psiquiatra em 2009 ele lhe apresenta um livro, com parte das fotos de um ensaio do fotógrafo Luiz Alfredo, feitas no Colônia. O desconhecimento dessa história por grande parte da população, levou a autora a se interessar sobre o assunto e saber sobre a história dos sobreviventes desse verdadeiro Holocausto.

Ela relatou em palavras e imagens o  processo de produção do livro. Ela precisava ouvir as pessoas que fizeram parte desse lugar, tais como alguns dos pacientes e os funcionários que fizeram parte da rotina do Colônia. Em sua pesquisa, Daniela constatou que muitos pacientes eram internados mesmo com a falta de critérios médicos, tratados com negligência e desumanidade durante a vida e  vendidos para estudos de cadáveres nas Faculdades de Medicina, quando mortos.  A autora contou histórias de crianças que nasceram no Hospital e foram tiradas dos braços das mães e doadas, e das que foram levadas para lá por não ter para onde ir.

 A praça lotou para ouvir e aplaudir em pé Daniela Arbex. (foto: Juliano Dutra/LABFEM-UNIFRA)
A praça lotou para ouvir e aplaudir em pé Daniela Arbex. (foto: Juliano Dutra/LABFEM-UNIFRA)

Das pesquisas de Daniela nasceram matérias para o Jornal Tribuna de Minas, que se expandiram e acabaram virando o livro e ainda documentário, ambos consumidos tanto dentro quanto fora do Brasil. Sobre os efeitos dessa publicação, o livro acionou um enorme holofote para essa parte ignorada e desconhecida da história brasileira.

O livro também relata histórias de médicos que lutaram não só pelo fechamento do Hospital, e pelas hoje consolidadas Residências Terapêuticas para cuidar da saúde mental, mas como por uma reforma psiquiátrica no Brasil e melhoramento das Leis. Entre muitas dessas histórias que Daniela revelou, as pessoas acharam seus familiares ou souberam o que foi feito deles, pois o Colônia quase não permitia contato com as famílias ou elas também queriam, não podiam manter contato com seus entes.

Sobre o desafio de escrever um livro-reportagem como esse Daniela diz que enfrentou muita resistência por parte das autoridades responsáveis pelos documentos. Ainda sobre o processo de escrever, Daniela acrescentou emocionada: “são momentos difíceis, mas nada do que eu passei chega perto do que essas pessoas passaram”. É para que não se repita essa omissão de direitos humanos e dignidade.

Em meio a praça lotada Daniela recebeu uma chuva de aplausos em pé e elogios. Entre o público, estava Janine Appel que também é jornalista e acompanha o trabalho da autora. Para Janine, não só a presença da Daniela Arbex em Santa Maria é muito importante para a cidade, mas obras como essa, de denúncias de situações que agridem a reforma psiquiátrica e agridem o que se prega como uma boa política de saúde mental.

Texto elaborado pela acadêmica Caroline Comassetto/Jornalismo-Unifra
Professor responsável: jornalista Bebeto Badke (MTB 5498)